quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Patrimonio historico cultural - qual o valor da nossa historia?





por Luciane Miranda

Percebe-se nas últimas décadas, quem sabe resultado da globalização, uma tendência a padronização do mundo, uniformização de valores econômicos como prioridade da sociedade e a visão de que o antigo deve ser substituído pelo moderno e que este consequentemente possui maior identificação com a contemporaneidade, vitimando as cidades com a ausência física de edificações que carregam parte da história e memória de tudo aquilo que construímos para chegar onde estamos, desconsiderando e desprezando a vivência e o esforço de muitos que em outros tempos ali estiveram.


Em Santa Rosa a situação não é diferente.
No dia 03 de janeiro de 2012, mais uma parte da nossa história ruiu. Foi a casa onde durante muitos anos funcionou o primeiro comércio local, datada da década de 1916, pertenceu ao comerciante Apolônio Zorzan e posteriormente à família Zeni. Estava situada à Avenida Borges de Medeiros, nas imediações da Praça Independência, local conhecido como Cidade Baixa, onde foram abertas as primeiras picadas em meio a mata que cobria a então “Colônia 14 de Julho”. Era nesta casa que os viajantes encontravam parada e os colonos descanso, onde aconteciam as articulações políticas e reuniões.

A Cidade Baixa, ponto de referência para antigos habitantes e para a própria história de Santa Rosa, ao invés de ser tombada e caracterizada como um dos Centros Históricos da cidade, inclusive tendo potencial para fomentar o turismo e consequentemente a economia local, tem sofrido ao longo dos anos a total descaracterização. Prédios novos sem nenhuma comunicação com o local, fachadas antigas cobertas por logotipos de empresas, arquitetura modificada das formas mais improváveis e absurdas possíveis, tudo contribuindo com a destruição da memória histórica e afetiva da comunidade.

Sabe-se da complexidade que envolve tal assunto, do direito de propriedade à construção de um plano diretor que viabilize incentivos fiscais para os proprietários de prédios tombados, da boa vontade política à criação da sensação de pertencimento que deve ser propiciada aos indivíduos ainda em sala de aula, da simples catalogação à construção de um plano municipal do turismo que compreenda as inúmeras possibilidades e necessidades de desenvolvimento do setor.

Porém, não podemos permanecer estáticos às burocracias e vontades, atitudes precisam ser tomadas inclusive tendo como argumento o fato de que a preservação do Patrimônio Histórico Material e Imaterial está instituído na lei municipal nº 4.612, de 29 de dezembro de 2009 e na Constituição da República Federativa do Brasil, art. 1°, parágrafo único e artigos 215 e 216, e estas precisam ser respeitadas mesmo que para isso as determinações advenham do Ministério Público. Somam-se, segundo levantamento, mais de 30 prédios em risco de desaparecer, entre eles o Clube Concórdia que já teve o primeiro andar de sua edificação vendido, bem como inúmeros imóveis situados nas cercanias da Praça da Bandeira, acrescente-se na lista o prédio do antigo cinema de Cruzeiro, o prédio da Viação Férrea entre tantos outros que poderiam transformar-se em proveitosos centros culturais ou sedes de instituições sociais e secretarias municipais, inclusive desonerando o setor público de gastos com novas edificações.

Santa Rosa possui uma participação muito significativa e singular para a construção da história da região e do Estado do Rio Grande do Sul, não temos o direito de construir “buracos negros e caixas vazias” no lugar onde nossos antepassados plantaram as primeiras sementes dos frutos que hoje colhemos, não podemos simplesmente ignorar nossa responsabilidade e nos tornarmos passivos ao descaso, ao não cumprimento das leis por aqueles que deveriam garanti-las. Não basta usar bombachas, cantar os hinos e se dizer um ser cultural. São as atitudes que nos movem!

(*) Luciane Miranda é Artista Plástica e Presidente do Conselho Municipal de Cultura de Santa Rosa.

fonte: Zulupa / Acesse www.zulupa.com.br

3 comentários:

Anatolio Pereverzieff disse...

Gostei do artigo. Fui criado nessa área da cidade, logo na quadra de baixo.( Experimentem ir até o Ginásio de Esportes João Moroni, ao lado do prédio que foi ao chão) Aliás a madeirama de nada serviria, pois a natureza lhe presenteou cupins, e assim sendo não há solução. Teremos alí, um prédio moderno. A cultura de Santa Rosa deve ser entendida como a cultura de quem veio aqui para redescobrir a América, centenas de milhares ficaram "bem de vida" e aqui investiram toda sua audácia e inteligência comercial.A articulista sendo Presidente do Conselho pode "aconselhar" chamando a comunidade a opinar e criar mecanismos que melhorem o paisagismo, melhores os prédios antigos, não falo de históricos, pois não temos prédios seculares. Desculpem se irrevente demais com meus palpites.

NO MUNDO DA LU(A) disse...
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NO MUNDO DA LU(A) disse...

Teu comentário não é irreverente demais, assim como meu texto não é exatamente um conselho. São duas opiniões diversas acerca de uma mesma realidade. É assim que se fomenta o debate! Discorde veementemente apenas da conclusão de que por não sermos uma cidade centenária não possuímos prédios históricos...a caracterização de um prédio como patrimônio histórico vai muito além da contagem tradicional dos anos, tem como base a situação e o momento em que foi construído, inclusive a importância de sua existência para o desenvolvimento da comunidade.O Conselho Municipal de cultura tem promovido o debate e o despertar da consciência acerca do tema, prova disso é que esta foi uma das principais deliberações da 2ª Conferência Municipal da Cultura, promovida no mês de dezembro de 2011.Precisamos unir forças e olhar nossa cidade com um pouco mais de carinho!